Este blog funciona como uma espécie de jardim por onde, de vez em quando, gosto de passar e descansar minha cabecinha oca.
Obs: Todas as crônicas publicadas aqui são revisadas profissional e fraternalmente por José Euríalo dos Reis. Contato: joseeurialo@yahoo.com.br
Morro de rir cada vez que ouço minha mãe dizendo isso pra mim ao telefone, após míseras 24 horas sem dar notícias.
A bronca que, pela lógica, deveria causar desafetos, obrigar-me a preencher o espaço imediatamente posterior à pergunta com um argumento convincente qualquer (quase sempre, girando em torno de temas como trabalho e estudos), me leva, ao contrário, a desatar uma gargalhada gostosa. Mistura faceira dessa coisa ímpar que é ser importante pra alguém, sem fazer força.
Apesar de já ter dada a luta por vencida, compreendo bem o meu único sobrinho: eu realmente não sou sua madrinha. Sou tia, e olhe lá! Dindinha mesmo é a dona da padaria. A Sandra. Para quem são entregues seus primeiros beijos e palavras da manhã, de quem recebe, entre um e outro pão francês, carinhos, cafunés e, o principal: muita atenção, obviamente, entre balas e chicletes.
Às vezes, respiro aliviada por ainda ser tia. E muitas são as vezes que suspiro contente por ainda ser possível ter conversas gostosas com minha mãe (pelo telefone ou pessoalmente).
Não! Ninguém tá doente não! Tá tudo bem, graças a Deus!
A questão é a fragilidade da vida mesmo... que retira de nós, sem nos darmos conta, numa segunda-feira à noite, por exemplo, aquilo que, há anos, prometia estar mais perto. E agora só poderá estar entre fotografias antigas e carinhos que ainda seriam ofertados.
Por ver frustrados, uma e outra vez, uma e outra vez, os sistemas que elaborara para se ver livre dos sempre recorrentes dramas vivenciados pelos que ainda insistem em amar e acabam em delegacias tentando argumentar que o notebook fora um presente, e não um furto, decidiu-se: agora vai ser tudo na base do checklist.
E que mal havia em definir previamente um par de condições? Seria menos humano agindo assim, se a única coisa que queria era simplesmente evitar os transtornos que naturalmente surgem quando o que separa dois corpos se chama abismo??? Ao menos assim não faria ninguém sofrer... Ao menos assim reduziria as possibilidades de revisitar aqueles “lugares” que transformaram sua individualidade numa inatingível utopia, quando o que sempre escutou foi que necessitaria precisamente dela pra ser autêntico, único, singular. Pra ser feliz.
A listinha serviria, nesse sentido — argumentava — tão-somente para evitar que se iludisse com essas falsas promessas que se nutrem do impossível, num terreno no qual o viável é uma realidade provisoriamente circunstancial.
Por isso, repetia para si, constantemente: “—Diferenças grotescas só se resolvem na novela das oito. E desse roteirozinho televisivo meia-boca já estou por aqui!!! Por aqui, ó!”.
1. Estado civil?
2. Estuda?
3. Trabalha?
4. Mora onde?
5. Conversa?
6. Idade? Mora com quem? (Note que aqui não são duas perguntas, mas apenas uma que se desdobra, inevitavelmente, em duas, ok?!)
Muitas foram as vezes em que se viu impedido de avançar já na primeira questão. Impressionava a quantidade de pessoas que fazia da situação cível um troféu que prometia “total discrição” (leia-se: ausência de afeto) e a inexistência desse turbilhão de conflitos que surgem quando nos dispomos a estar cada vez mais perto, cada vez mais presente, correndo, justamente por agir assim, o risco de pôr tudo a perder.
E foi justo num dia em que nem pensava em aplicar seu questionariozinho besta (até porque nem teve tempo, antes, de se lembrar de sua existência) que sentiu seu corpo vibrar estranhamente. E o melhor: dita vibração não se masturbava solitariamente; pulsava, ao contrário, num erótico e delicioso (oh, Deus!!!) esquema de turnos (recuos e entregas, entregas e recuos...) que tornava o elo entre os dois cada vez mais instigante, cada vez mais necessário...
... cada vez menos dependente de perguntas... simplesmente porque o silêncio(obviamente, grávido de significados) se impunha como a melodia primeira que embalava dois corpos ávidos de um desejo que transcendia (ambos sabiam disso, mesmo sem o dizer) a esfera material das coisas...
... e foi justamente por ter se esquecido do infeliz do checklist, tãããããão essencial, taaaaantas vezes utilizado e reiteradas vezes defendido, que se viu arremessado, abruptamente, a uma dimensão não tão sedutora da vida: na dimensão dos que, mesmo sangrando de desejo, precisam dar vazão ao que sentem escrevendo um texto como este, por exemplo.
Caramba! Um pé de amora! — disse, em voz alta e com os olhos vidrados no que, para ela, era mais do que um retorno às lembranças de sua infância.
Mas também se lembrou do risco que envolveria lançar-se... Foi inevitável recordar os conselhos da mãe que mencionava, uma e outra vez, sobre os perigos. Manchas que não sairiam das roupas e o castigo certeiro por não tomar cuidado.
Sim, havia perigo. Compreendia bem. Mas desistir não era tão simples. Não se tratava de uma fruta, apenas. Era um chamado. Quase uma intimação.
Experimente ficar incólume diante de um pé de amoras maduras. Experimente não se esquivar diante dessa fragilidade negra que, de tão intensa, captura nossa atenção, a ponto de nos fazer esquecer qualquer risco — pensava, também em voz alta.
Reuniu um pote delas e, a despeito da mancha no vestido, sorria satisfeita com o pequeno troféu que reunira em suas mãos, a custas de galhas esticadas e quebradas e daperda de outras tantas amoras que despencaram, inevitavelmente, no chão. Uma à milanesa repugnante. Tesouro agora vulnerável, e não mais desejado.
Por um momento ínfimo, pensou em si e nas tantas vezes que desejou. Nas tantas vezes que evitou se manchar. Nas inúmeras ocasiões em que, mesmo se lançando e esticando braços, mãos e sonhos, só conseguira estar cada vez mais distante do objeto do seu querer.
Mas, no caminho de volta à sua casa, o inevitável: metade do pote, após um movimento não-calculado, se viu espalhado entre os bancos do automóvel novo.
Recolhendo-as com cuidado e com um silêncio piedoso, ouviu do filho pequeno: — Não tem problema não, mamãe. A culpa não foi sua. Sabe de quem foi? Da dona do pé de amora.
Rindo contidamente, continuou limpando as manchas espalhadas pelo chão, apertando, com força, os lábios, na tentativa de recuperar o sabor da última amora que esteve em sua boca.
Ser desdobrável em vários. Ser multiplicável e, ainda assim, continuar defendendo singularidades. Que prometem O novo, O belo, O verdadeiro... E, nessa matemática, filha obediente dos Tempos modernos, eventualmente, roçar a face fugidia do que chamam de plenitude. Completude feita, também, do que não é. Bonecas russas.
Como implodir essa porção minha que não suporto? Se seu sorriso de Monalisa rameira continuará lá, dando o tom de todas as outras? Mesmo das que nem germinaram?
Como destituir o lugar de uma dessas facetas (a que delata minha porção mais mesquinha) sem corromper as demais? Seria o resultado desse esforço mais ou menos cômodo do que daquele que provém desse outro serializado? Facilmente reproduzível, que acumula, com perícia, aplausos e suspiros?
Pois, hoje, uma delas tomou conta do pedaço. E resolveu dizer que essa putaria tem que acabar ou se assumir de uma vez por todas.
Não sou bonitinha! Não sou uma bonequinha!!! Muito menos protagonista de mim.
Hoje irei pro porão e lá pretendo ficar por um bom tempo.
Queria ser capaz de buscar dentro de mim (só de mim) razões diárias para não desistir...
Mas sou tão escassa...
Se não fosse assim, não seria necessário ter que me alimentar de sons, palavras, companhias, imagens... E das quase sempre laxantes promessas.
Será que poderia prescindir delas? De cada uma delas e, ainda por cima, seguir defendendo a autossuficiência?
Mas, muito embora admitindo ser assim tão precária, continuo produzindo muito. Eu sei. Muitas, mas muitas sobras. Que se confundem, amiúde, com o objeto mesmo... esse a que chamo de vida.
Mas, às vezes, me dispo por inteiro, e percorro, fagueiramente, entre um e outro instante, entre um e outro, entre um e...., entre um.
Acreditando, provisoriamente, num carrossel de cintilâncias que ora sorri para mim, ora sorri para..., ora sorri..., ora!
Acho que não suportaria conviver com alguém exatamente como eu. Não que eu seja chata. Não é isso. Até me acho bem interessante. Aliás, seria até cômodo pra mim. Mas é justamente por essa comodidade poder se transformar, um dia, em uma insuportável mesmice, que gostaria de tentar isso junto com você.
— Mas eu detesto tudo isso...
— E desde quando a gente só faz o que gosta?
— Admiro outras coisas, outras ideias, mas essas daí... Ah não! Pra mim, não dá!
— Como é possível renovar o pensamento com certezas tão totalizantes? Com pré-conceitos tão irrevogáveis?
— Olha... Não vai dar!
— Eu sei, mas escuta...
— Você é inteligente, etc. e tal, mas dessas ideias não compartilho. Aliás, te acho o máximo, mas...
— Mas você prefere ficar com você mesma. É isso?
— Aqui, será que você ainda não entendeu que não preciso gostar dessas coisas?
— Posso fazer uma pergunta?
— Claro!
— O que a gente faz com certezas como essas quando, numa noite de sexta estrelada e amena; um salmão delicioso sobre a mesa, um vinho da melhor safra pra acompanhar, não vemos outra saída que comer sozinha e brindar aos que, mesmo se ferindo, imprimem um no outro a marca da diferença, do novo, do inusitado? Alimento indispensável pro que chamam de alegria de viver?
— Não entendi.
— Sabe amor, amizade, admiração?
— O QUE É QUE TEM?
— Sabe aquela palestra a que fui com você? A seu convite?
trabalho gráfico de Maggie Taylor, artista norteamericana
Entrega
Por Juliana Leal
Impossível não aproveitar a cena para filosofar sobre vazios e ecos de esperança. Sobre esse desespero que é não conseguir dizer pro desejo que o momento e o contexto são inadequados (por Deus!!!!). Explicar pra esse turbilhão de afeto, que parece não ter a menor noção espaço-temporal, que não, não dá. Não dá!!!! Sou eu. Só eu. Eu e Baco, na melhor das hipóteses. O que complica ainda mais as coisas...
Dois são os personagens do meu quadro: um cachorrinho Basset e seu dono, um senhor de uns 70 anos. Ambos, sempre juntos, fazem sua caminhada apoteótica diária em meio a outras tantas almas que vão e vem. Movidas sabe-se lá por quais razões.
Vez ou outra, ele abana o rabo com certa inquietação e o homem, num gesto de extrema dignidade, curva-se diante desse pedaço canino de afeto. Escorando-se em suas pernas, o cachorro ganha dois ou três carícias rápidas (que, tentando verbalizá-las: parecem a gestualização de um: “— É isso aí, garoto!!! Estou aqui, cara!!!”).
O cachorro, profundamente agradecido, goza da plenitude animal (e de ser vivo???) de saber que caminhar lado a lado não é uma decisão vã, ainda que seja uma coleira de couro vermelha o elo material que os conecte.
Tenho mais de 30, moro em BH (por enquanto) e sou professora de Espanhol e Português (literatura e língua). Estudo Literatura Comparada e, de vez em enquando, me arrisco a escrever crônicas. Estas que vou publicando aqui.
Textos sem leitores não têm razão de ser. Aos anônimos e aos conhecidos, obrigada por dar vida àquilo que, sem a dedicação de seu tempo, olhos, imaginação, afeto..., não seria mais que um amontoado de letras inúteis.
Livros que li e recomendo...
"Canalha" de Fabrício Carpinejar
"Factotum" de Charles Bukowski
"Simples: o amor nos anos 00" de Marcelo Carneiro da Cunha
"Era uma vez um amor mas eu tive que matá-lo" de Efraim Medina Reyes
"100 poemas" de Carlos Drummond de Andrade (edição bilíngue)